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  Ano IX - Macau-RN, 01 a 15 de abril de 2004
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Bullying: humilhação que faz escola

O termo intimida, e a idéia é essa mesmo. A palavra inglesa bullying significa ameaça ou intimidação e, embora seja ainda pouco conhecida, refere-se a uma prática freqüente nas escolas. Brincadeiras freqüentes e constragedoras, humilhações e até mesmo agressões: tudo isso caracteriza o bullying. Pode ser o jovem ridicularizado por ter um defeito físico ou a menina estudiosa chamada de CDF ("cabeça de ferro", numa versão mais branda do termo chulo de uso corrente). Não há quem não tenha conhecido pelo menos um caso desses.

Embora seja objeto de estudos sérios no exterior, principalmente no Reino Unido, o fenômeno ainda é pouco investigado no Brasil. Uma lacuna que a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia) procurou preencher ao desenvolver o estudo que deu origem ao recém-lançado livro "Diga não ao bullying - reeducação do comportamento agressivo entre estudantes". Os autores são Aramis Lopes Neto e Lucia Helena Saavedra, membros da Coordenação Técnico-Científica do Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes mantido pela entidade. A publicação – que contou com o apoio da Petrobrás, do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística e da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro – pode abrir caminho em direção a iniciativas permanentes de conscientização nas escolas.

O Dr. Aramis Lopes Neto, pediatra e um dos autores do livro, conversou conosco sobre as conseqüências do bullying e falou também dos primeiros resultados desse programa: muitos jovens perceberam a extensão do problema e a prática diminuiu nas escolas que participaram.

Rets – O bullying é o que costumamos chamar de assédio moral?

Aramis Lopes Neto – Isso! É o assédio moral ocorrido com estudantes. Mas a gente procurou adotar, nesse estudo que desenvolvemos, a denominação de comportamento agressivo, para dar uma conotação mais ampla, já que o bullying pode ser físico também.

Rets – E como esse trabalho foi desenvolvido?

Aramis Lopes Neto – Nós trabalhamos durante seis meses com 11 escolas no município do Rio – nove municipais e duas particulares –, em um universo de 5.800 alunos de 5ª a 8ª série na faixa etária de 10 a 18 anos, com predominância dos 12 aos 16.

Fizemos, primeiramente, um questionário sobre esse fenômeno que foi aplicado a todos, para identificarmos a realidade deles antes de fazermos qualquer tipo de intervenção. Depois disso iniciamos uma conscientização de alunos, professores e coordenadores, para tentar reduzir a incidência, já que estudos internacionais mostram que há grande risco tanto para quem é autor quanto para quem é alvo. E também para aqueles que não se envolvem diretamente e que nós chamamos de testemunhas.

Segundo o nosso levantamento, 40% dos estudantes admitiram envolvimento em atos de bullying, como autores ou alvos ou ainda em papel duplo – às vezes enquadrados em um caso, às vezes noutro. Destes, 28% admitiam ser alvos. Um dado interessante é que 60% dos alunos afirmaram que o bullying ocorre com maior freqüência dentro da sala de aula, único em que a nossa pesquisa contraria os estudos internacionais. Nestes, a percepção era de que as agressões aconteciam principalmente na hora do recreio, momento de maior informalidade e descontração. Essa informação gerou uma repercussão muito grande entre os professores e foi o ponto central da discussão maior que tivemos sobre as estratégias a serem adotadas.

Outro ponto observado é que 80% dos alunos admitiram que o bullying motiva um sentimento negativo e reconheceram que isso provoca uma repercussão ruim no ambiente escolar, gerando dúvidas, insegurança e o medo de serem as próximas vítimas.

Rets – Os jovens ouvidos por vocês tinham alguma consciência do que era bullying e do que isso representava?

Aramis Lopes Neto – Quando submetemos os questionários, não dissemos do que se tratava, apenas explicamos o que era bullying, em uma linguagem que eles compreendessem. Então dissemos que era zoar, sacanear... e a percepção dos alunos foi muito boa. Trinta e dois por cento alegaram que não sabiam por que isso acontecia. E quase 29% diziam que eram apenas brincadeiras. Mesmo assim, eles achavam que aquilo gerava um mal-estar.

Rets – Vocês tomaram conhecimento de algum caso que tenha sido mais significativo?

Aramis Lopes Neto – Nós tínhamos a preocupação de não impor à escola qualquer situação que divergisse do método de trabalho dela. Oferecemos a pesquisa, preparamos materiais, cartazes informativos, mas a escola desenvolvia o trabalho de forma autônoma. Umas tiveram um desenvolvimento muito grande, outras nem tanto, mas sempre incentivando a participação dos alunos, o protagonismo. Algumas fizeram teatro, música, outras estimularam o sentimento da paz. E assim tivemos contato com vários alunos. Um deles era da 5ª série, baixinho, alvo de brincadeiras dos colegas. Era chamado de anão, meio quilo... durante uma das reuniões ele expressou seu descontentamento e os próprios alunos entenderam.

Outro caso foi de uma menina que era chamada de vassoura, por causa do seu cabelo. A professora que coordenava a reunião argumentou que era só uma brincadeira. Aí ela disse: "Mas eu não gosto". E aquilo foi interessante porque gerou uma discussão dentro do grupo. Depois, essa menina nos encontrou e disse: "Acabou, ninguém fala mais isso pra mim".

Mais tarde, fizemos uma segunda investigação e 80% deles já sabiam o que era bullying, o que significa que a escola soube disseminar o conceito. E 30% disseram que a ocorrência diminuiu. Dentro da sala de aula, o índice, que era de 60%, caiu para 38% – uma redução muito boa e que comprova o comprometimento do professor, que teve uma participação ativa nesse resultado.

Rets – A maior parte das informações sobre bullying vem do exterior. Não há outros dados sobre esse fenômeno no Brasil?

Aramis Lopes Neto – Os dados que existem são principalmente internacionais, especialmente europeus, em boa parte produzidos na Inglaterra. Aqui no Brasil existem algumas teses de mestrado abordando isso, mas sem tanta profundidade. Tem ainda uma professora de São José do Rio Preto (SP) [seu nome é Cleodelice Fante] que faz um trabalho parecido com o nosso – aliás, anterior ao nosso.

Mas ainda é um tema muito árido, que cresceu bastante no mundo na década de 90, na Europa, porque alguns desses jovens desenvolvem uma baixa auto-estima grande que repercute na vida social, no trabalho e causa até mesmo suicídio. E os casos mais dramáticos a gente tem visto na mídia, como o de Columbine, nos Estados Unidos [em 1999, dois adolescentes vítimas de bullying mataram a tiros 14 estudantes e um professor da escola que freqüentavam]. No Brasil, tivemos casos semelhantes na Bahia e em Taiúva, no interior de São Paulo.

O importante é que os educadores percebam que a reação desses jovens não é matar apenas quem pratica o bullying. Eles querem matar toda a escola, que é o lugar onde sofreram durante tantos anos. Por isso a Abrapia quer alertar para a necessidade de estarmos atentos a esse problema.

Rets – E de que forma se combate esse problema?

Aramis Lopes Neto – Estimulando princípios de amizade, solidariedade e respeito às diferenças. O bullying reforça sempre alguma característica diferente e geralmente começa por apelidos – em 54% dos casos. Até o bom aluno acaba sofrendo, é chamado de CDF. Felizmente a maioria consegue superar. Mas nem todos.

Rets – A Abrapia vai dar seqüência a esse trabalho?

Aramis Lopes Neto – O nosso grande desafio é arrumar patrocínio. A gente teve uma repercussão muito positiva e está em busca disso para continuar avançando, porque é um trabalho de mudança de cultura. A gente quer abordar pontos que foram identificados como importantes, como a questão do professor como agente de transformação, a aproximação das famílias e a promoção de um ambiente sadio na escola, que tem um papel de formadora da cidadania. Esses garotos saem das famílias e o seu primeiro momento de buscar conscientização social e cidadania é dentro da escola.

Outra coisa fundamental é que os dados são semelhantes em qualquer lugar, seja em um bairro de classe média-alta ou em uma vizinhança pobre. Independe, portanto, de classe social ou do nível de violência com o qual eles convivem na comunidade. Isso não é um fator de agressividade entre eles, ou seja, a escola ainda é um campo neutro, ainda é um ambiente em que todos querem seus filhos em segurança. A gente não pode, pela curta duração do trabalho, afirmar, mas algumas escolas detectaram, ao final, um menor índice de vandalismo e repetência.

Rets – Então pode haver uma relação direta entre o bullying e esses episódios?

Aramis Lopes Neto – Certamente. A partir do momento em que o ambiente torna-se mais prazeroso, o aluno passa a reagir melhor, o que se reflete em tudo isso.

Fausto Rêgo

(Transcrito do Rets – Revista do Terceiro Setor – www.rits.org.br)